TRADUÇÃO LITERÁRIA
A uma visão tipicamente mecanicista da natureza e do universo que caracterizou todo o surto científico e o corte epistemológico a partir do século XVI, os quais lançam as bases para a idade moderna, não é estranho que os tradutores dos textos sagrados nas principais línguas então faladas, tenham preferido o primeiro método, chamado de equivalência formal. O interesse que o Renascimento despertara pelos textos clássicos, em geral, tinha como consequência óbvia a sua liberalização e divulgação, o que passava pela transposição dos textos para a linguagem vernácula dos povos europeus, em particular. Os textos bíblicos não foram excepção e muitos foram os entendidos em hebraico, grego e também em latim que os colocaram acessíveis à generalidade do povo, em grande parte impulsionados por uma visão ampla e liberalizadora que o movimento da Reforma Protestante conferira. O próprio conceito da universalização do conhecimento criava agora raízes profundas iniciando assim um movimento que não mais parou até aos dias de hoje, na sequência de um longo período medieval claramente marcado por uma visão elitista do conhecimento.
Assim, muito se deve a estes homens sem os quais certamente não se teria evoluído nas complexas técnicas de tradução. Um exemplo muito claro de uma tradução bíblica com estas características é a de João Ferreira de Almeida, a primeira tradução em português da Bíblia completa feita a partir das línguas originais, e uma das mais apreciadas na nossa língua, particularmente no sector protestante, sendo editada desde 1809 pela Sociedade Bíblica. Esta é reconhecidamente uma tradução literal ou literalista o que faz dela, juntamente com algumas outras traduções que lhe são contemporâneas, um texto erudito, o que pressupunha um conhecimento profundo da cultura e mentalidade dos povos a que pertencem tais línguas. No entanto, Almeida não deixa de ser um vanguardista pois, segundo Soares Carvalho, "há no seu texto claras manifestações de que ele não era um formalista convicto, mas apenas funcional e pragmático".
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